Estudo revela que quase metade do material de camisetas é desperdiçado na fabricação

Um estudo realizado na Noruega revela que 44% da matéria-prima utilizada na produção de camisetas de algodão se perde durante as fases de fabricação, evidenciando a necessidade de melhorias nos processos industriais.

Pesquisadores noruegueses estimam que 44% da matéria-prima das camisetas de algodão se perde antes de chegar ao consumidor

A moda gera cerca de 10% das emissões globais de gases de efeito estufa, superando até a poluição causada pela aviação. Um estudo realizado por cientistas do Instituto SINTEF Industry e da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia (NTNU) avaliou os impactos ambientais da produção de camisetas de algodão em nível global.

A pesquisa concluiu que mais da metade do tecido destinado à confecção das camisetas se perde antes mesmo de ser comercializado. “Quando discutimos resíduos têxteis, o foco geralmente recai sobre as roupas que descartamos. No entanto, o problema começa muito antes”, afirmou Rakib Ahmed, ex-aluno da NTNU e atual pesquisador na SINTEF Industry.

Investigação do ciclo de vida das camisetas

Os pesquisadores investigaram o percurso das fibras de algodão utilizadas nas camisetas ao longo de dois ciclos de vida, utilizando um modelo de fluxo de materiais e uma avaliação do ciclo de vida do produto.

O estudo considerou um cenário típico em que a produção ocorre em Bangladesh, enquanto o uso e a gestão de resíduos acontecem na Noruega. Foram analisados cinco tipos de impacto ambiental:

  • Aquecimento global;
  • Eutrofização de água doce;
  • Ecotoxicidade em água doce;
  • Consumo de água;
  • Uso da terra.

Consumo e desperdício na indústria da moda

Apesar das variações de consumo entre diferentes países e entre gêneros, a pesquisa estima que as mais de 8 bilhões de pessoas no mundo compram, juntas, entre 80 e 100 bilhões de roupas anualmente — cerca de 10 peças por pessoa. Deste total, aproximadamente 60 bilhões de itens nunca chegam a ser vendidos e frequentemente são descartados em aterros sanitários.

“Muitas análises do ciclo de vida de roupas e fluxos de materiais assumem que uma peça é utilizada apenas uma vez e que os materiais não são reciclados”, comentou Ahmed. “Além disso, o foco tende a estar na realidade de cada país isoladamente, em vez de adotar uma perspectiva global, o que dificulta a compreensão do quanto podemos reciclar e reutilizar”.

Os cientistas descobriram que 44% do material das camisetas de algodão é perdido durante a fabricação. “Atualmente, conseguimos reciclar e reutilizar, no máximo, 17% das fibras originais para a produção de uma nova camiseta”, esclareceu o pesquisador. “A maior parte das perdas acontece nas etapas iniciais da cadeia de produção”.

Os autores ressaltam que esse cenário envolve peças que são relativamente simples de reciclar. A adoção de processos mais eficientes, que gerem menos resíduos e possibilitem um maior reaproveitamento de materiais, poderia reduzir de forma significativa os impactos ambientais, especialmente nas fases de produção de fios e processamento das matérias-primas.

Com melhorias nos métodos, os cientistas estimam que seria possível reciclar 44% dos materiais, em comparação aos 17% atuais. Além disso, as emissões de gases de efeito estufa poderiam ser diminuídas em cerca de 10%, e outros impactos ambientais em 20 a 25%.

Alguns países da Europa já estão implementando medidas para coletar roupas usadas e aprimorar a gestão dos resíduos têxteis. “Desde o ano passado, os municípios noruegueses são obrigados a oferecer locais para a coleta de têxteis usados”, contou Johan Berg Pettersen, professor da NTNU e participante do estudo. “É evidente que, para que essas iniciativas sejam eficazes, é necessário considerar também o processo de produção”.